Substantivo Próprio

segunda-feira, novembro 07, 2005

Não deixe o samba morrer

— Entra, senta. Tô fazendo café, você quer?

Dali do sofá coberto com uma manta marrom era possível ver, por uma fresta da porta da sala, entreaberta, o cinza do céu entre as grades do portão de ferro. Vinha um vento cortante da rua. Nada parecia melhor que um café passado no coador de pano para esquentar aquela manhã de terça-feira.

— Mas aqui é coisa simples, tá? Coador e copo de requeijão.

— Prefiro... fico mais à vontade.

— Minha família brinca que não tem nada melhor do que bater papo em volta da mesa posta com café e bolo de buraco.

Bolo de buraco é aquele feito na forma com buraco no meio. Um pão de ló com gosto de infância. Bolo de bolo, como os adultos costumam explicar para encerrar a avalanche de perguntas da criançada. Massa simples, feito Aureluce. Saborosa, feito sua história.

A mulher negra sentada ali na cadeira da sala pequena sorri um sorriso largo, que esconde a idade, como ela faz questão. Aureluce é um rosto na multidão, mas hoje em dia, um rosto mais conhecido do que ela mesma poderia sonhar um dia. Ontem mesmo estava no coreto da Praça Carlos Gomes, cantando em público.

Seu tio José das Neves Balthazar foi compositor conhecido em Campinas e, embora tivesse nascido numa família de músicos, todo dia ela fazia tudo igual: dividia seu tempo entre o marido, os filhos e um cargo na Unicamp. E só.

Sempre gostou de cantar, mas fazia isso somente no coral da família criado pela avó, Maria das Neves, há 43 anos. Até que uma amiga a incentivou a inscrever-se num concurso de calouros de um bar da cidade, em 1999.

Navalha no bolso


— Deus do céu, que cê tá fazendo aqui nessa cidade, mulhé?

Aureluce olhou com uma ponta de raiva e outra de desconfiança. Quem era aquele sujeito pra chegar assim, sem pedir licença?

— Sou daqui, moro aqui... qualé a tua, hein?

José Duarte Martins, um mulato bem apessoado que apareceu em 2003 no Tonico’s Boteco — reduto de sambistas em Campinas — tinha dois interesses, na verdade: produtor musical natural do Rio de Janeiro, tinha se encantado com a voz de Aureluce, conhecida na noite campineira àquela altura. E, réu confesso meses depois, com suas curvas também.

Mas a relação dos dois não passou do profissional. Até porque de rapaz folgado Duarte tinha só o gingado da voz. E admitiu a Aureluce o quanto lhe admirou o jeito de difícil nela, uma mulher que aparentava ter bem menos experiência do que na verdade escondia ali, na idade oculta. “Quando ele viu minha reação, disse: tô sentindo que isso vai dar certo. Você é profissional e é disso que eu preciso.”

Duarte propôs o inimaginável: tirar Aureluce da noite e colocá-la na mídia.

“Foi só o que ele me falou:
semana que vem volto e
te levo pro Rio. Vamos
gravar um CD. Topas?


Pedras pisadas no cais


Estava posta a encruzilhada: deixar o marido e os filhos, seguir para o Rio de Janeiro sozinha e mudar o compasso da vida ou achar mesmo que aquilo tudo era demais para ela, uma aposentada de uma universidade pública.

Respirou fundo. Pensou. Seu relacionamento com o marido não andava lá aquelas coisas. Tomou coragem e pediu: esquece nosso amor, vê se esquece. Cada tábua que caía, doía no coração. No de Aureluce e talvez no de seu marido. Os três filhos, embora enciumados, compreenderam. Era o sol a trazer bom dia à mãe batalhadora que tinham.

E foi ali, um tanto perto das águas da Guanabara, que Aureluce nasceu de vez para o samba. Não só por gosto, afinal, no samba o destino é quem quer. E vida tem os seus revezes, já dizia o Chico Brito de Wilson Batista. Aquele era o revés de uma Aureluce apagada com o tempo.

Solidão, lava que cobre tudo


“Quando cheguei ao Rio,
cantei composições inéditas
para o CD. Estava feliz.
Mas me sentia sozinha.


Mesmo assim a cantora aceitou o desafio. Só não contava com a morte de Duarte, tão logo terminaram de gravar o CD.

A lágrima clara sobre a pele escura faz pausar a fala rouca e ansiosa. A chuva que cai lá fora é a única música ali, naquele momento. Aureluce não chora de pesar, porque a vida continua, diz ela. Mas de pensar na rapidez da reviravolta, na chance que ganhou ali, já longe da mocidade. E no breque ingrato no samba da vida.

Depois da morte de seu produtor musical — uma espécie de “anjo da guarda”, como ela ainda chama Duarte - Aureluce sacodiu a poeira e deu a volta por cima. Mês que vem, lança Conquista, ainda que o CD seja uma produção independente.

Não pretende abandonar o caminho, nem se o tempo avisar que já não pode mais cantar. Então vai, Aureluce, não deixe o samba morrer. Até quando puder. Afinal, há de existir um sambista mais novo, a quem entregar o seu anel de bamba um dia.


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Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 29/10/2005

segunda-feira, setembro 26, 2005

Amiga da morte

Assim, de algum lugar que não pôde ser vista, surgiu Janete. A mulher baixa, negra, tronco largo e cabelos penteados para trás, presos com uma tiara, apareceu de trás de uma sepultura, feito assombração.

Sim, era o túmulo do prefeito Antonio da Costa Santos o destino naquele dia 10, data em que se completava o quarto ano sem Toninho, assassinado em setembro de 2001. A mãe do prefeito morto já tinha ido levar flores e limpar o túmulo do filho um dia antes, como costuma fazer freqüentemente. Mas àquela hora da manhã, perto das 9, o Cemitério da Saudade estava vazio.

"A senhora deve
estar procurando
o túmulo do
Toninho, só pode
ser.


Janete desculpou-se pelo susto, sentou-se sobre a pedra de mármore de um jazigo próximo ao do prefeito. Respirou fundo. Enquanto mexia na bermuda vermelha, tirando um fiapinho aqui e outro acolá, meio cabisbaixa, disse que setembro era um mês de lembranças dolorosas para ela não só porque sua família toda votou, confiou e acreditou em Toninho. Em 8 de setembro de 1996, Janete Salvador perdeu três filhos de uma só vez.

Era um domingo. Ela e o marido, Neife, estavam no sítio de um familiar em Monte Mor com os filhos. O dia estava quente e, embora Neife Junior soubesse nadar, a mãe ficou preocupada quando ele decidiu ir para a lagoa, dar um mergulho. O pai deixou e o garoto de 20 anos prometeu cuidar das irmãs.

“Senti um calor
no meu corpo.
Desmaiei.


Os pais ficaram no rancho. O garoto entrou segurando as irmãs Vanessa, de 12 anos, e Camila, de 11. Foi quando Rodrigo, sobrinho de Janete, saltou sobre as costas do primo e os quatro afundaram. Rodrigo foi retirado da lagoa inconsciente. Neife, Vanessa e Camila estavam mortos.

Quando ouviu o grito do marido, Janete desceu a ladeira que separava a casa da lagoa e, ao ver os três corpos estendidos no chão, caiu de joelhos com as mãos pra cima, rogando piedade a um Deus que, ali, parecia cruel.

domingo, julho 03, 2005

Iracema está inerte

Entre os casarões e sobrados da Rua Reverendo Miguel Rizzo Junior, no Jardim Pacaembu, fica o número 256, uma casinha simples, mais cuidada do que bonita. Cheia de plantas, apesar da pouca luminosidade. Ali em frente, na manhã do último dia 22, uma quarta-feira, Iracema Lorenzette colou o rosto nas grades do portão para ver o movimento na rua — coisa que não fazia há mais de 23 anos. No semblante da mulher sexagenária havia tão pouca luz quanto na garagem e nos cômodos. A casa estava vazia. O olhar de Iracema também.

No dia 13, perdeu a filha Kellen Cristina Ribeiro. Uma garota de 21 anos no corpo de uma menina de 11, 12 no máximo. Pelo atestado de óbito, foram insuficiência respiratória, pneumonia e caquexia (desnutrição profunda) que levaram Kellen. Segundo os médicos, foi a conseqüência máxima da leucodistrofia, uma doença rara e degenerativa que se manifestou quando ela tinha 5 anos. Para Iracema, foi Deus, “que finalmente deixou-a descansar”.

Quem já perdeu um filho diz que essa é dor que não se questiona, nem se mensura. Iracema perdeu dois. E sua dor começou há 23 anos, quando o filho mais velho, James, deu os primeiros sinais da mesma doença. Perto dos 6 anos, o menino não tinha coordenação motora. Seus passos eram cambaleantes. A voz de quem já falava quase como gente grande foi sumindo aos poucos, até se tornar ruído. E silêncio, em dezembro de 2000.

Iracema não sabe o que fazer, para onde ir, nem se tem forças para ajudar outras famílias — embora tenha conhecimento de causa e experiência. Está inerte.

Mesmo calejada, dispõe-se a falar. E a tentar entender o motivo de ter sido sorteada nesta loteria ingrata. Loteria da qual também foi vítima Michaela Odone, quando descobriu que seu único filho, Lorenzo, era portador de um dos dez tipos existentes de leucodistrofia, em 1984. Na época, Lorenzo tinha 5 anos de idade e expectativa de vida de mais dois.

Quem cuidou deles
foi a mãe. Confesso
que acabei fugindo...
Por medo, tristeza,
não sei. Não consegui.

O casal italiano Michaela e Augusto deixou todos os afazeres para descobrir de onde vinha a doença. Marido e mulher tornaram-se autodidatas e descobriram uma combinação de duas gorduras capaz de estabilizar os índices de substâncias que corróem a mielina, uma espécie de fita isolante sem a qual os nervos não transmitem impulsos ao cérebro. A obstinação dos Odone pela conservação da vida do filho salvou outras crianças. E inspirou o filme O Óleo de Lorenzo (1992), assistido por Iracema a pedido de um dos tantos médicos que visitou.

Na loteria da leucodistrofia, um em cada 30 mil nascidos é escolhido — número registrado na Escandinávia, região na qual a doença é mais freqüente. No Brasil, as estatísticas são conflitantes. Mas estudos apontam que qualquer criança concebida por pais portadores tem 50% de chance de ser portadora, o que não quer dizer que será afetada.

Mesmo não tendo as condições financeiras dos Odone, Iracema também deixou tudo o que considerava importante para cuidar de James e Kellen. Para conseguir as doses caras de medicamentos como o Ensure Plus HN e o complexo alimentar Nutrison - que levavam os R$ 400,00 da pensão e todas as doações. Deixou até o marido, Jair Ribeiro, que segundo ela “não agüentou a pressão”.

Jair admite: foi difícil ver os filhos se calarem aos poucos. Não conseguirem se alimentar. Perderem, pouco a pouco, a capacidade de enxergar o mundo aqui fora. “Quem cuidou deles foi a mãe. Confesso que acabei fugindo dos assuntos relacionados a eles. Por medo, tristeza, não sei. Não consegui.”

Enquanto pôde, Iracema batalhou. Nem sempre foi forte. Certa tarde, saiu e comprou veneno para ratos. Estava determinada a acabar com todo aquele sofrimento, matando James, Kellen e depois tomando a sua dose. Teve uma forte vertigem. Caiu. Levantou-se e jogou tudo fora. Ajoelhou-se em frente aos dois e chorou, pedindo perdão. Hoje, conta a história cabisbaixa, envergonhada.

E agradecida pela ajuda da população. De Campinas, de cidades vizinhas. Pessoas que doaram alimentos, medicamentos e cuidaram até de algumas de suas contas desde 1997, quando uma reportagem publicada pelo Correio Popular contou seu drama.

Nascida em Cosmópolis, Iracema chegou a Campinas ainda menina. Foi mãe de Wilson e Marisa, filhos de outro pai, ainda na adolescência. Depois, conheceu Jair. Quando ele foi embora, James e Kellen já estavam doentes. Nunca mais quis saber de outro amor.

A leucodistrofia deu trégua para Jair e Clayton, os filhos saudáveis de Iracema e Jair. Hoje, com 25 e 23 anos respectivamente, um trabalha e o outro estuda. Como viram a mãe passar a vida cuidando dos irmãos, sabem se virar sozinhos. E agora ficou tarde para Iracema colocá-los no colo. Se pudesse escolher, diz ela, preferiria ficar ali, olhando o movimento da rua. Cabeça encostada nas grades do portão, mãos firmes nas mesmas barras de ferro, para segurar o corpo em pé. Passaria a manhã de quarta-feira, passaria quanto fosse. Até chegar a sua vez de ir embora.

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Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, em 03/07/2005

sexta-feira, maio 27, 2005

Ninguém fez nada

Na manhã da última quarta-feira, a professora Teresa (*) sentiu-se num beco sem saída. O dia começou como outro qualquer, de uma semana qualquer. Terminou em assalto, ameaça de morte, humilhação, susto e um sentimento de impotência e revolta, que até ontem à tarde latejava forte. Feito a dor de cabeça provocada pela noite mal dormida.

Anteontem, Teresa engrossou as estatísticas da violência. Apanhou para chegar lá. Mas doem menos os hematomas nas costas que a certeza de que seu Boletim de Ocorrência será só mais um entre os quase 3.400 registrados mensalmente pela Polícia Civil, com os roubos de veículos e os chamados ‘roubos comuns’, em Campinas.

Eu tenho sangue correndo
nas veias. É absurdo esse
risco ali, na porta de uma
escola infantil. Isso não
revolta?

Só no primeiro trimestre de 2005, 2.349 roubos diversos e 1.273 roubos de veículos foram registrados pela mesma Polícia Civil, segundo aponta levantamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Trimestre que vem, Teresa vai aparecer no balanço também, tão anônima quanto se sente agora, depois de perder RG, CPF, título de eleitor, carteira de habilitação, cartões de banco, talões de cheque.

Fim da linha

A manhã estava escura quando, logo às 6, a professora levantou-se da cama. Ela ainda não sabia sobre os estragos que a chuva da madrugada tinham causado na cidade e em toda a região. Seguiu a rotina e passou o café. Engoliu rapidamente um pedaço de pão, escovou os dentes, beijou o marido e as duas filhas. Ligou o Corsa e foi para a escola infantil próxima à Praça de Esportes Tancredão, no Jardim Novo Campos Elíseos. Ela dá aulas lá há 17 dos 28 anos que trabalha na rede municipal de ensino. Mas não fazia idéia do que a esperava naquele dia.

Pelo caminho, foi pensando na aluna que deixara de ir ao passeio no shopping, na terça-feira, por falta do pagamento da taxa de transporte. Queria tê-la levado. Mas não podia assumir as despesas de todas as crianças carentes para as quais dá aula. Ali, entre os alunos com idades de 3 a 6 anos, muitos vêm de famílias de baixa renda. A maioria.

A aula começava às 7h30. Ao passar em frente ao portão principal da escola – pelo qual entram as crianças – pensou que seria melhor somente virar a esquina e estacionar o carro por ali mesmo, perto da entrada de funcionários.

Isso porque, para chegar ao estacionamento de professores, improvisado em uma quadra de esportes descoberta, teria que seguir até o fim da rua e isso seria muito arriscado: o fim dela fica em frente a um córrego e, ali, o asfalto cedeu. Ficou quase impossível passar de carro pelo trecho, depois da tempestade de quarta-feira.

Enquanto o poder público aguarda a licitação para consertar a cratera – as obras começam em no máximo 30 dias, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura – os professores dão um jeito e estacionam seus veículos onde conseguem.

Ao parar o carro perto do pequeno portão de entrada de funcionários, Teresa percebeu que dois rapazes a observavam. “Eles começaram a se aproximar e eu vi que era comigo. Fiquei com medo de ser seqüestrada e saí do carro rapidamente.”

A professora até apressou os passos, mas ouviu um dos homens gritar: “Não corre não, filha da p...”. Tentou bater o portão, mas um dos assaltantes se adiantou, e a impediu. Ela já estava subindo a escadaria que a levaria para o pátio, quando o mesmo homem a puxou pela blusa. Arrastou-a escada abaixo até perto do portão, em segundos.

“Ele segurava um revólver pequeno, prateado.” Jogou-a de bruços e bateu forte em suas costas. Teresa não sabe se foi com a mão ou a arma. Chorava enquanto o rapaz, já ajudado pelo parceiro, quebrou a alça da bolsa que ela carregava a tiracolo, num puxão só.

Nem tinha percebido, mas a chave do carro ainda estava em uma de suas mãos quando ela caiu no chão. Jogou-a longe. Um dos rapazes pegou. Antes de deixar a rua da escola, os assaltantes bateram o Corsa num veículo que estava virando a esquina. Fugiram.

Impotência

Duas funcionárias da escola ficaram paralisadas enquanto assistiam ao ato brutal. “Não sabíamos o que fazer.” Viviane (*), também professora e amiga de Teresa, não quer mais voltar ao local, bem como as outras seis mulheres que dão aulas ali. A diretora, vítima de assalto no mesmo lugar, no ano passado, não sabe mais a quem recorrer.

Na manhã de quarta, não havia policiais no bairro. As funcionárias ligaram para o 190. Ninguém apareceu. Viviane pegou seu carro e levou Teresa a duas delegacias, até encontrarem, às 9 horas, “o lugar certo para registrar o Boletim de Ocorrência”.

Também não havia guardas para zelar pelo prédio municipal. De acordo com o coordenador do posto da GM que responde por aquela região, todos os dias há ronda escolar nos horários de pico (entrada e saída de alunos). A infra-estrutura da Regional 8, porém, contabiliza apenas 40 homens e três viaturas, para 74 bairros daquelas redondezas.

Silêncio e revolta

Teresa engole seco. Pára de contar a história e enxuga as lágrimas. Os olhos de seu marido marejam. Ela está traumatizada. Ele, alterna momentos de ódio e resignação. À mesa redonda, no centro da sala de estar, paira o silêncio - alguns segundos. “Somos batalhadores. Ela não reagiu. E nós não vamos procurar quem fez isso. Não queremos consertar a sociedade. Mas quem pode fazer isso não está fazendo”, diz o marido da professora.

A família já foi vítima de assalto, há muitos anos. Levaram tudo o que eles tinham em casa. Outra vez, ao chegarem em casa à noite, o marido e uma das filhas de Teresa se depararam com um rapaz armado. A garota estava fora do carro; o pai, dentro. “Não tive dúvida. Joguei o carro em cima do cara. Eu queria esmagá-lo no muro. Ele fugiu. No dia seguinte, ainda tive que ouvir do policial que dei sorte. Perguntei a ele se ele tinha mulher, filhos. Se eu não puder salvar minha família, que tipo de homem sou eu?”

Talvez o policial que pediu para o marido de Teresa não reagir tenha se baseado em casos como o do engenheiro civil Franciso César Bortolai, de 51 anos, morto em dezembro de 2004 com um tiro no peito ao chegar em casa, no Jardim Santa Odila, e reagir a um assalto. “Mas eu tenho sangue correndo nas veias. Não aconteceu o pior. Nem daquela vez, nem na escola, graças a Deus. Agora, é absurdo esse risco ali, na porta de uma escola infantil. Isso não revolta?”

Ontem, enquanto muitos contabilizavam os prejuízos causados pela forte chuva de quarta-feira, sob o sol ameno do outono, a professora fechou as janelas de casa. Passou corrente e cadeado no portão. Trancou a porta. Voltou mentalmente à escuridão da manhã quarta-feira. E ao beco sem saída. Na tentativa de reencontrar sua identidade - não a de papel.

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(*) nomes fictícios, para preservar as fontes
Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 27/05/2005